quarta-feira, 23 de maio de 2018

Cartografia da vida.

O que nos faz livres? Historicamente nos deparamos com duas principais
teorias que defendem a existência da liberdade. Para a primeira, ser livre é poder
locomover-se a todo e qualquer lugar que se deseja, na outra, liberdade seria a
realização de um ato que parte da minha vontade, não dependendo de um terceiro
que me obrigue.
Antes de mais nada devo admitir a possibilidade de que a liberdade não
passa de uma mera ilusão humana. Acreditamos que somos livres. Creio que posso
agir de acordo com minha vontade e que posso ir onde quiser. Contra isso, alguém
poderia me questionar se o que eu decido realmente parte de minha vontade livre,
se não existem forças externas, as quais não conheço, me obrigando a agir de
modo determinado. Em relação a locomoção livre no espaço também cabe outro
questionamento: o ambiente onde vivo não delimita de todas as formas minhas
ações, seja na locomoção, o lugar onde nasci, a língua que falo, os limites do meu
corpo?
Afirmo-lhes meus amigos: se quisermos levar a sério a questão da liberdade
temos que pensá-la sob esses dois aspectos, tanto a vontade livre da escolha bem
como nossa locomoção em meio às possibilidades do espaço. Se pensarmos bem,
somente podemos existir dentro de um espaço preenchido com coisas, pois o vazio
não está ocupado. Ele (o espaço) paradoxalmente exerce uma dupla função: ao
mesmo tempo que delimita nossa ação é também o único que nos permite agir, já
que somente existimos dentro dele.
Ainda poderiam nos questionar se o libertar-se não seria semelhante a uma
fuga, um desprender-se. O ato de sair de um lugar ou deixá-lo é antes de mais nada
a pressuposição da ocupação de um outro lugar, pois não existe um fora absoluto
do espaço, um além-lugar. A cartografia de nós mesmos delineia não somente os
espaços do nosso corpo mas também os da nossa mente. O que seria liberdade
então? Talvez seja aquele momento em que abrimos o mapa da vida e
desvendamos os tesouros que encontram-se em meio à ela, ou talvez eu
simplesmente me esqueça de olhar o mapa.
Paulo Victor de Albuquerque Silva.

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